Radar +55 · Outubro de 2026
Na Tríplice Fronteira, quem acompanha o noticiário eleitoral costuma olhar também para o outro lado do rio Paraná. No domingo, 25 de outubro, o motivo é prático: o segundo turno está tão apertado que qualquer desfecho pode mexer na relação do Brasil com Washington, Pequim, Buenos Aires e Assunção. E é dessa relação que dependem o câmbio, o comércio e, na ponta da cadeia, o preço do metro quadrado em Foz.
Vitória dentro da margem, com tendência à direita
No primeiro turno, Flávio Bolsonaro (PL) fez 47,03% dos votos válidos e Lula (PT), 45,16%, segundo o TSE. De lá para cá, as pesquisas contam a mesma história. O Datafolha de 15 de outubro marcou 47% a 45% para Flávio, a Quaest, 46% a 44%, e a Veritá, 51,1% a 48,9% nos votos válidos. A diferença fica sempre em torno de dois pontos, dentro da margem de erro, com Flávio à frente em todas as medições.
O cenário mais provável, portanto, é de uma vitória apertada, dentro da margem, com tendência para o candidato de direita. Tendência não é certeza: uma diferença de dois pontos cabe na margem de erro, e o último debate, na Globo, é na sexta-feira, 23. Há ainda um detalhe que reforça a leitura: as últimas pesquisas antes do primeiro turno davam Lula à frente nos votos válidos, e a urna entregou a Flávio mais votos do que elas estimavam. Se o erro se repetir, a vantagem de Flávio tende a ser um pouco maior do que a das pesquisas. Se for corrigido, o resultado fica ainda mais perto do empate.
Na nossa análise de 5 de outubro, mostramos como Foz e o Paraná votaram no primeiro turno. Aqui o foco é o que vem depois.
Dois caminhos, uma mesma geografia

O governo Lula aposta em diversificar parceiros. Promulgou em abril o acordo Mercosul–União Europeia, quer acelerar um acordo do bloco com a China e sustenta que as tarifas americanas têm motivação política em ano eleitoral. Flávio Bolsonaro faz outro diagnóstico: atribui as tarifas à condução diplomática do governo, pediu ao USTR, em julho, que não as imponha e defende negociar diretamente com Washington, sem romper com Pequim. Nos dois casos, o discurso é de abrir mercados. Muda a ordem de prioridade e o tom.
O que complica a conta é que o Brasil não decide sozinho. A Argentina de Milei busca um arranjo tarifário próprio com os Estados Unidos, o Paraguai de Santiago Peña vê interesses cada vez mais próximos de Washington, e qualquer acordo do Mercosul exige consenso. Quem vencer herda um bloco com mais vontades do que unanimidades.
O que não depende da urna
Algumas peças da fronteira andam no ritmo delas, seja quem for o presidente. A Ponte da Integração, que custou R$ 1,9 bilhão, está aberta desde dezembro, mas a liberação plena de cargas espera o corredor do lado paraguaio, previsto entre o fim deste ano e o início de 2027. A Selic estava em 14% depois do corte de agosto, e o crédito imobiliário cresceu 23% no primeiro semestre. O dólar, que rondava R$ 5,10 em agosto e setembro, recuou para perto de R$ 5 depois do primeiro turno. O turismo de Foz vive um ano histórico, segundo o setor.
Do outro lado da ponte, a demanda é visível. O Paraguai registrou 9.125 pedidos de residência de brasileiros só no primeiro trimestre, e o metro quadrado em Ciudad del Este gira entre US$ 900 e US$ 1,4 mil, em geral com financiamento direto da incorporadora.
Perguntas melhores do que apostas

Para quem olha a fronteira como investimento, três perguntas valem mais do que adivinhar o vencedor. Quanto do preço em dólar por metro quadrado, em Foz e em Ciudad del Este, resiste se o real oscilar depois da eleição? Quando o corredor paraguaio liberar a carga pesada, a demanda por áreas logísticas ao longo da BR-277 e da Perimetral Leste muda de lugar? E, com tantos brasileiros indo morar no Paraguai, quanto do comprador de alto padrão passa a comparar Foz com Assunção?
A eleição muda o tom da conversa. A geografia, a ponte e o rio continuam onde estão.
Este texto organiza dados e posições declaradas e não é recomendação de investimento. Selic, câmbio e crédito refletem as últimas informações confirmadas e podem ter mudado. Dados de 20 de outubro de 2026.
Fontes: TSE e Agência Senado (resultado do 1º turno); Datafolha, Quaest, Veritá e PoderData (pesquisas de outubro, via CNN Brasil, Investidor10, Revista Oeste e Estado de Minas); Compre Rural (calendário de debates); Diário de Pernambuco, O Povo, Gazeta do Povo, A Crítica, Poder360 e Folha de Pernambuco (posições das candidaturas); Reuters via InfoMoney e iProfesional (Mercosul); Misiones Online (Peña e Milei); BL2020 e Renova Invest (Copom e Selic); Portas e Larya (crédito imobiliário); Tribuna PR (brasileiros no Paraguai); Correio do Estado e Mundo Logística (Ponte da Integração); Mercado & Eventos (turismo em Foz).
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